Saúde e Arte na Amazônia
Estudantes levam palhaço-terapia para hospital em Belém
Phillippe Sendas
A Amazônia brasileira é uma região marcada por contrastes: de rios caudalosos a grandes estradas; de metropóles a pequenos municípios; de instituições científicas reconhecidas internacionalmente a escolas limitadas em vários aspectos (material, ensino, recursos humanos etc.). Como no Brasil, uma região de povo miscigenado e de cultura(s) diversificada(s). Quando se fala em saúde, os problemas são vários. Quando se fala em arte, as ações são contáveis.
No Pará, segundo maior Estado do Brasil, com uma população de aproximadamente 7,5 milhões de pessoas – dados do Censo de 2010, realizado pelo IBGE –, as deficiências no Sistema Único de Saúde (SUS) também são visíveis. Recentemente, o Índice de Desempenho do SUS (Idsus), avaliando a qualidade e o acesso ao serviço de saúde no país, apontou o Pará como o Estado com a pior avaliação. Entre os resultados, também se destaca Belém como a segunda capital brasileira com os piores serviços. Entretanto, em meio a tantas dificuldades, várias ações merecem reconhecimento por, de algum modo, mudarem o cenário, muitas vezes caótico, do sistema público de saúde do Pará.
Dessa maneira, por que não levar arte aos hospitais? Para uns, seria até um pouco ridículo. Para outros, um “instrumento de saúde”... E é na ala pediátrica do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB), em Belém, que todos os domingos novos profissionais da saúde entram em cena. Algo rotineiro, salvo um pequeno detalhe: narizes vermelhos indicando a chegada de doutores-palhaços. São os integrantes da Trupe da Pro-Cura, projeto de extensão vinculado a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará e que integra o Núcleo de Artes como Instrumento de Saúde (NARIS). O grupo é formado por estudantes de Medicina – em sua maioria – e de outras áreas. Atualmente, são definidas escalas mensais para as entradas dos palhaços no hospital.
Além do trabalho com a Palhaço-Terapia, iniciado em agosto de 2009, a Trupe da Pro-Cura realiza atividades de Teatro de Rua, baseadas no método do Teatro do Oprimido, definido pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, em que se acredita na transformação da realidade por meio do teatro. “A gente entende que saúde vai para muito além de uma consulta médico-hospitalar. Na verdade, a saúde vai ser garantida pelos políticos, pelos médicos, pelos garis, pelos padeiros, pelos atores etc. A gente entende que, na verdade, o estudo da arte é um estudo de tecnologia em saúde, criando diferentes formas de intervenção, apreensão, compreensão e transformação das condições de saúde. Por isso o teatro”, destaca Vitor Nina, estudante de Medicina e Diretor Geral da Trupe.
Próximo ao isolamento médico, dois palhaços tocam e cantam uma música lenta e serena para a pequena criança que dorme. Em um quarto, um grupo canta um pouco... desafinado, é verdade. No outro, a ciranda toma conta e causa um alvoroço que envolve crianças, enfermeiros, pais e palhaços. A interação envolve a todos e a rotina do hospital é quebrada, como afirma a técnica de enfermagem Socorro Mendes: “Nós todos interagimos com os palhaços: técnicos, enfermeiros, médicos, enfim, toda a equipe. Nós brincamos também com as crianças. Às vezes, a gente está até um pouco apreensivo por alguma questão, mas naquele momento é um momento de total alegria e descontração para todos nós”.
No HUJBB, a maior parte dos pacientes vem do interior do Pará. Na ala pediátrica, 47 crianças ocupam os leitos. E Florindo, Luna Lunática, Espeto, Tapioca, alguns dos vários doutores-palhaços da Trupe, desenvolvem seus trabalhos que ajudam no tratamento das crianças, como reconhece a médica Denise Gouveia: “Esse tipo de iniciativa faz com que as crianças esqueçam um pouquinho das suas patologias. Quando tem alguma coisa que as façam brincar, sorrir e interagir, elas melhoram muito mesmo. Isso já está comprovado que melhoram bastante porque vai liberando as endorfinas, o bem-estar.”
Entre os ideais da Trupe da Pro-Cura, identifica-se que vivemos em uma sociedade carente de valores, portanto o grupo acredita e busca um “retorno à própria humanidade que ainda existe em cada um de nós”, como ressalta Vitor: “Para mim, a Trupe é uma prova da necessidade de compreensão dos aspectos lúdicos do homem e da necessidade de expansão da maneira como se pensa não só a medicina, não só as questões da saúde, mas a própria universidade. Porque, teoricamente, a gente está fazendo algo inusitado, mas quando a gente vai para a prática, percebemos que era algo muito necessário, algo que estava muito carente. Então, para mim, a Trupe é isso: uma vitrine máxima de que é necessário repensar a maneira como a gente faz ciência, como a gente faz política, como a gente faz arte.”
Fim de tarde. Os palhaços saem de cena. Nos rostos, os narizes vermelhos já não estão. Somente a maquiagem um pouco borrada e a expressão de cansaço. Risadinha agora é Bianca. Jujuba é Luciana e assim por diante. Hora de arrumar as coisas e sair do hospital. Talvez ali, a célebre frase de Augusto Boal ganhasse vida, na certeza de que “atores somos todos nós e cidadão não é aquele que vive em sociedade, é aquele que a transforma!”

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